Claustro monástico, conforme o Houaiss: “galeria coberta geralmente arqueada, que forma os quatro lados de um pátio interior”.
Religiosas enclausuradas, retiradas do mundo no claustro, área restrita às pessoas consagradas de um mesmo sexo. 

“Evangelize sempre, quando necessário, use palavras”.


Praticamente todo evangélico já ouviu afirmarem que Francisco de Assis disse essa frase. Ele nos deixou pouca coisa escrita e, do que temos, nunca encontrei essa frase. Quase tudo que se conhece do Poverello (Pobrezinho, como ele, às vezes, é chamado em italiano) é fruto dos seus hagiógrafos.


Embora tudo indique que Francisco não tenha deixado por escrito essa recomendação, ela se aproxima do que os seus escritos e primeiros hagiógrafos nos ensinam sobre ele: que viveu e ensinou que a vivência social não é algo que o cristão deve evitar, mas, pelo contrário, buscar.


No entanto, Francisco não usaria essa frase da epígrafe para justificar a evangelização apenas como uma vida de exemplo, como se faz hoje de forma velada. Para ele, a vida exemplar não anula a proclamação. Algo semelhante ao que afirmou John Wesley, uns cinco séculos depois, dizendo que o mundo é nossa paróquia, o lugar onde devemos pregar.

É importante notar que, nas Escrituras, dar testemunho tem mais a ver com proclamar o que ouvimos e vimos do que com o que geralmente os evangélicos chamam de dar testemunho. 

Francisco foi muito importante para que pudéssemos entender que o mundo é o nosso lugar de busca de santidade e o nosso lugar de serviço, tanto por meio da palavra quanto por meio do exemplo. Até o final do século XI, a vida no claustro (claustrum) era o ideal de santidade. Só eram considerados cristãos de primeira categoria aqueles que viviam fora do mundo (sociedade). Ser monge era antecipar a vida no Céu.
O Sacrum Commercium (Santa Aliança), documento do século XIII, representa bem como era diferente a relação de Francisco e dos menores com o mundo social (o nome franciscanos é bem posterior, inicialmente os seguidores do Poverello eram chamados de frades menores ou simplesmente menores). No documento em questão, o Pobre de Assis e alguns companheiros tiveram um encontro com a Senhora Pobreza. Eis um dos diálogos:

“Ela, […] levantou-se ligeiramente, pedindo que se lhe mostrasse o claustro. Conduzindo-a a uma colina, mostraram-lhe todo o orbe [mundo] que podiam ver, dizendo: ‘Senhora, este é o nosso Claustro’.”
Embora o vocabulário da história nos soe muito estranho (“Senhora Pobreza”, “claustro”, “orbe”), aprendemos com essa narrativa algo que a Reforma Protestante desenvolveu séculos depois, a saber, a idéia de que a vida cristã, apesar de ser uma caminhada para a Eternidade, é vivida na História.
Essa parábola é um convite para deixarmos de olhar apenas para o Céu (que os monges pensavam estar no fundo escuro das celas monásticas) para também direcionarmos nossos olhos para os homens e para a Criação. O mundo revela a beleza do Criador.
Calvino diz algo semelhante quando afirma: “pois tão harmoniosa disposição do mundo é para nós como um espelho, no qual podemos contemplar de outro modo o Deus invisível” (Institutas da Religião Cristã). Antes ainda do reformador francês, Tomás de Celano, frade menor do século XIII e primeiro hagiógrafo oficial de Francisco, também disse na Memoriale in desiderio anime:
“Embora [Francisco] desejasse sair logo deste mundo como se fosse um desterro onde devia peregrinar, este feliz viajante sabia aproveitar o que há no mundo, e bastante. Usava o mundo como um campo de batalha com os príncipes das trevas, mas também, para Deus, como um espelho claríssimo de sua bondade”.

Para Francisco, “não amar o mundo” significava não amar o pecado e não se apegar a essa existência em detrimento da outra, pois defendia que o cristão deve sair do mundo (a vida dominada pelo pecado) para pregar ao mundo (os homens) enquanto caminha para o mundo que é bem melhor do que este (Vida Eterna).

Mais uma vez temos o ensino de Francisco em pleno acordo com a Palavra de Deus, pois o Evangelho faz com que os crentes sintam o cheirinho do banquete chamado Eternidade e desejem dele participar, ao mesmo tempo que diz que eles estão em missão enquanto não chegam nas Bodas do Cordeiro.

Tem muito em comum entre Francisco, os menores, os reformadores e cristãos modernos e contemporâneos. Existe muita coisa boa para aprender com o Pobre de Assis. Sendo assim, não perguntemos, leitor, “pode vir alguma coisa boa da Idade Média?”. Quando Cristo prometeu estar conosco, sua Igreja, até a consumação dos séculos, estava incluso o medievo.

Francisco e seu olhar tanto para a História quanto para a Eternidade deve ser retomado hoje, pois muitos teólogos (católicos ou evangélicos) gostaram tanto da idéia de olhar para a terra novamente que pararam de olhar para o Céu.

Para alguns, o que a Bíblia chama de Eternidade é uma sociedade justa e “Volta de Cristo” nada mais é do que os ensinos dele vividos aqui e agora. Outros, mais coerentes com o que realmente querem, não falam e cantam mais sobre o “Céu, lindo Céu” ou sobre o “Dia Glorioso”, pois querem as bênçãos, todas, nessa vida.

Tanto um tipo (mais coletivista) quanto o outro (mais individualista) se esqueceram do exemplo do Poverello: o mundo é o nosso lugar de busca de santidade e onde servimos a Deus e ao próximo. Portanto, amemos, sem sentimento de culpa, a vida na História, desde que sem prejuízo do grande amor pela Eternidade.

Para mais leituras, Dissertação de Mestrado do Rev. Flávio Américo: Clarissimo speculo bonitatis Dei: o mundo de Tomás de Celano e a sua leitura de mundus.

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